Papel higiênico com folha dupla, tripla e até quádrupla estão mais populares. O encanamento corre mais risco?

  • 28/08/2026
(Foto: Reprodução)
Papel higiênico com folha dupla, tripla ou quádrupla é pior para o encanamento? Fabrikasimf/Magnific O papel higiênico brasileiro está ganhando cada vez mais folhas – dupla, tripla, quádrupla. Segundo a Suzano, empresa-mãe de marcas como Neve, Max Pure, Mimo e Scala, a maciez é o grande diferencial para a decisão de compra de um produto dessa categoria. A consultoria Nielsen apresentou dados da participação de mercado em volume de papéis higiênicos de folhas dupla, saltando de 67% em 2020 para 74% em 2022, e de folha tripla, que dobrou, de 3% para 6%. Já a fatia do papel de folha simples caiu de 32% para 20%. Mas já parou para pensar se essa quantidade extra de folhas faz diferença para o encanamento? Na verdade, a recomendação oficial do governo brasileiro e concessionárias de saneamento é que não se deve descartar o papel higiênico no vaso sanitário, e sim despejá-lo no cestinho de lixo. Isso é, em parte, devido à falta de preparo da infraestrutura de esgoto, mas, além disso, o Brasil não possui regulamentação que exija um desempenho mínimo de desintegração para venda de papel higiênico. Não se joga no vaso: o papel higiênico no Brasil é diferente? 📺 Quer comprar melhor? Receba testes e dicas do Guia de Compras no seu e-mail. Ou seja, o papel nacional não precisa seguir nenhum parâmetro que comprove que o produto consegue se despedaçar na água com facilidade, o que aumenta a chance de entupimentos. No entanto, um rolo de papel higiênico com múltiplas folhas, feito para ser mais macio e confortável ao toque, não necessariamente vai ser pior para o encanamento do que um papel de folha simples. O mito da contagem de folhas Embora adicionar camadas fisicamente aumente a espessura e a resistência do papel (o que teoricamente pode dificultar a penetração da água), o número de folhas não é suficiente para prever se ele vai entupir o cano. É o que diz Vinícius de Oliveira Ribeiro, professor de Engenharia Ambiental e Sanitária da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS), que coordena uma pesquisa sobre a hidrodispersão de papéis higiênicos e seu comportamento no escoamento em tubulações de esgoto. “Dependendo da maneira como essas camadas são unidas, isso pode dificultar a penetração da água e a separação das fibras. Entretanto, outros fatores são muito importantes: gramatura de cada folha, matéria-prima, características das fibras, gofragem*, forma de união entre as camadas, resistência mecânica quando molhado e aditivos empregados durante a fabricação”, afirma Ribeiro. *A gofragem é o acabamento na textura – aqueles desenhos que cada marca e modelo de papel tem nas folhas. “Um papel de folha quádrupla, por exemplo, pode ser fabricado com folhas individuais mais leves que se separam rapidamente, enquanto papéis de folha dupla podem ter baixíssima capacidade de se desintegrar na água”, completa. Ao longo da pesquisa, a equipe promoveu um teste prático com três marcas de papel de folhas duplas, que foram colocadas na água sob 6 segundos de agitação, para imitar a ação de uma descarga. “Uma das marcas apresentou aproximadamente 73% de desintegração, enquanto as outras duas apresentaram apenas cerca de 7% e 6%. Uma atingiu 100% de desintegração em 30 segundos; outra, mesmo depois de 120 segundos, havia desintegrado somente cerca de 26%”, conta o engenheiro. “Ou seja, com o mesmo número de folhas, encontramos comportamentos completamente diferentes. Isso mostra que não podemos estabelecer uma relação simples do tipo ‘mais folhas = menor dispersão’”, conclui Ribeiro. Por que é tão difícil encontrar papel que pode ir ao vaso? A boa notícia é que não é preciso temer os papeis com mais folhas em relação aos outros. A ruim é que não há solução em vista para a questão além de jogar o papel apenas no cesto. Ainda falta regulamentação e informação e há também uma questão de custo e tecnologia. Segundo Patrícia Kaji Yasumura, gerente técnica do Laboratório de Celulose do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), são necessários mais investimento e pesquisa para que o papel brasileiro possa ser descartado no vaso. Para deixar o papel desagregável sem perder o equilíbrio entre maciez e resistência, as fabricantes precisam investir mais no produto. No entanto, na opinião da técnica, isso não será uma prioridade para as empresas enquanto não houver estudos sobre a estrutura do esgoto e interesse governamental em criar uma norma técnica nacional para a hidrodispersabilidade do papel.

FONTE: https://g1.globo.com/guia/guia-de-compras/papel-higienico-com-folha-dupla-tripla-e-ate-quadrupla-estao-mais-populares-o-encanamento-corre-mais-risco.ghtml


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