Conpresp autoriza reforma para criação de academia na Serraria do Parque Ibirapuera

  • 08/06/2026
(Foto: Reprodução)
Urbia quer transformar Serraria do Parque Ibirapuera em centro comercial Arquivo pessoal O projeto de reforma da antiga Serraria do Parque Ibirapuera, na Zona Sul de São Paulo, foi aprovado nesta segunda-feira (8) pelo Conpresp, conselho de preservação do patrimônio da capital. A iniciativa da concessionária Urbia visa a exploração comercial do espaço, hoje utilizado para práticas como tai chi chuan, ioga e outras atividades coletivas gratuitas. A votação terminou em 5 a 3 após meses de debate com usuários e especialistas que pediam a preservação da estrutura. As intervenções planejadas incluem o fechamento de mais da metade das laterais do galpão com painéis de vidro e a construção de um mezanino em quase toda a sua extensão, onde serão instalados equipamentos de academia. A Urbia aguarda autorização da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente para iniciar as obras e diz que ainda não tem parceria comercial para a área. A discussão entre os conselheiros do Conpresp foi retomada com a leitura de um parecer jurídico que sustenta não haver limitações objetivas para a ocupação da Serraria na resolução de tombamento do parque. O documento argumenta que as diretrizes gerais estabelecidas no Plano de Intervenções do parque de 2020 – como limite de ocupação de 50% da área no térreo e 30% no pavimento superior do galpão – são meramente orientativas e podem ser revisadas. Para fundamentar a regularidade da proposta, a Urbia citou como precedente um projeto da própria prefeitura para converter a Serraria num museu dedicado à obra do escultor Frans Kajcberg, que foi aprovada com índice de ocupação superior à atual e teve legalidade confirmada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo em 2010, mas acabou não saindo do papel. Movimentação de visitantes na Serraria e Praça Burle Marx, no Parque Ibirapuera A análise recebeu manifestação favorável de área técnica da Secretaria Municipal de Cultura, que considerou sem relevância jurídica os argumentos contrários ao projeto. A Associação dos Proprietários, Protetores e usuários de Imóveis Tombados (Appit) havia alegado risco de dano irreversível ao patrimônio para tentar barrar a reforma proposta pela Urbia. Na leitura de seu voto, favorável à proposta, o presidente do Conpresp, Wilson Levy, afirmou que se ela "não satisfaz a integralidade dos usuários do Ibirapuera, não desqualifica a edificação e tampouco o seu entorno, sem maiores interferências a atividades ali realizadas" Após apontamentos feitos por entidades de defesa do patrimônio e pela conselheira Danielle Santana, representante do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), ele incluiu no texto que a Urbia deverá apresentar, em agosto, um planejamento de restauro do parque para o semestre seguinte. O objetivo é permitir que o conselho tenha uma "visão global" sobre os planos da concessionária e assim evitar uma descaracterização no "sentido geral" do Ibirapuera. Concessionária diz que atividade econômica garante conservação Embora a proposta tenha gerado críticas do conselho gestor do parque, que teme a descaracterização da área e restrições ao acesso, o diretor da Urbia, Samuel Lloyd, defendeu nos encontros que a atividade econômica é o que vai garantir a manutenção e o restauro do patrimônio. Em audiência pública realizada na Câmara Municipal em 19 de maio, ele citou o modelo de gestão da Sala São Paulo como referência. "A gente tem bilheteria para espetáculos, serviços de alimentos e bebidas, aluguel de um espaço para eventos e exposição de marcas patrocinadoras, para citar algumas das atividades econômicas, e isso não deixa esse espaço [Sala São Paulo] menos nobre", argumentou Lloyd. Segundo o diretor da Urbia, o projeto passou por alterações significativas para se adequar às exigências dos órgãos de patrimônio (Conpresp, Condephaat e Iphan), como a retirada de mesas e de um quiosque de alimentação, além da substituição de paredes de alvenaria por um revestimento em madeira na área onde vão ficar os vestiários. Lloyd também explicou que o mezanino será autoportante, construído a partir de uma tecnologia 100% reversível chamada steel frame — o que permitiria o retorno ao desenho original no futuro. "Estamos falando quase como um Lego, a gente não precisa fazer qualquer tipo de mutilação nessa estrutura" Ele também rejeitou a comparação com um "shopping center" e disse que a intervenção trará "mais utilidade" à área. Projeto de reforma da Serraria prevê construção de laje e fechamento do pavimento superior com vidraças Reprodução/Urbia A Serraria é uma estrutura industrial remanescente da década de 1930 — anterior à criação do parque — e servia originalmente para a conservação de bondes e marcenaria. Em 1992, o espaço foi requalificado pelo renomado paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994), que integrou o galpão a uma praça com espelhos d'água, fontes e vegetação nativa em frente ao Viveiro Manequinho Lopes. Especialista em parques urbanos e professora da Universidade Mackenzie, a arquiteta Cássia Mariano considera a Serraria como elemento central de um dos poucos espaços públicos projetados por Burle Marx em São Paulo. Para ela, o fechamento com vidros e construção de uma laje interna acabariam com a continuidade visual e integração do conjunto, além de diminuir a visibilidade de aspectos históricos e arquitetônicos, como as tesouras de madeira que sustentam o telhado e uma grua de içamento quase centenária. A arquiteta também criticou o excesso de ativações comerciais no parque, que estariam tomando espaço de contemplação e convivência com a natureza. "A gente precisa em algum local dentro do Ibirapuera poder simplesmente olhar o verde; poder simplesmente ter paz; poder simplesmente ter sossego; poder simplesmente respirar, que é para isso que os parques públicos existem", declarou Cássia durante a audiência na Câmara. Em janeiro, o Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) da prefeitura emitiu um parecer técnico contrário ao projeto de reforma, apontando possível descaracterização da obra original e prejuízo ao paisagismo da área. O órgão considerou que a ocupação proposta — 57% no térreo e 89% no pavimento superior — viola as diretrizes de ocupação máxima de 50% e 30% previstas no Plano Diretor do parque. O parecer avalia que isso compromete a fluidez visual e limita o uso público do espaço. Proposta da Urbia para reforma na Serraria do Ibirapuera prevê pontos comerciais no térreo e em piso superior Reprodução/Urbia O órgão também criticou a falta de um plano de restauro paisagístico fiel ao projeto original, citando uma frase do próprio Burle Marx: "Não nos esqueçamos de que a paisagem também se define por uma exigência estética, que não é nem luxo nem desperdício, mas uma necessidade absoluta para a vida humana e sem a qual a própria civilização perderia sua razão de ser", diz trecho do parecer. Apesar da negativa técnica, a diretora do DPH, Marília Barbour, encaminhou a proposta para análise do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), argumentando que o plano de intervenções da concessão não deve ser visto como "algo imutável, que não possa ser revisto, desde que devidamente justificado". Concessão O Parque Ibirapuera foi concedido à iniciativa privada em 2020, durante a gestão do ex-prefeito Bruno Covas (PSDB). O contrato deu à Urbia o direito de explorar comercialmente a área pública durante 35 anos. A concessionária pertencente à empresa Construcap tem a locação de espaços para alimentação entre suas principais fontes de receita. Nos últimos anos, os quiosques, lanchonetes e restaurantes se multiplicaram pelo parque. Segundo o diretor da Urbia, Samuel Lloyd, as ações comerciais sustentam a manutenção e preservação dos bens tombados. A empresa prevê R$ 350 milhões em investimentos para o Ibirapuera ao longo da concessão. Outros parques da capital passaram por processos similares após concessão, como o Villa-Lobos e o Água Branca, na Zona Oeste. Ambos tiveram crescimento nas ações comerciais patrocinadas por grandes marcas e eventos. Marquise do Parque Ibirapuera é reaberta depois de revitalização

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/06/08/conpresp-autoriza-reforma-para-criacao-de-academia-na-serraria-do-parque-ibirapuera.ghtml


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